Seu cavalo escapava aos inimigos e corria na frente. O barulho dos cascos na pedra das ruas era o único som na noite fechada. As ruas laterais abriam-se em gargantas escuras. Aqui e ali, a mancha de algumas luzes, no interior de prédios. Ao longe, as finas torres das igrejas de Santa Ana e São Cristóvão. Não tinha mais nada a perder. Uma ladainha ecoava no seu coração doente. Na garupa, uma terrível sombra, sem corpo nem voz, declinava a lista das coisas que já não existiam mais. Outra noite, sem fogos nem estrelas, descia sobre a escuridão. Só conseguiram detê-lo quando ele passou pelo Arsenal Imperial. Reconduzidos ao palácio, ele e o cavalo espumavam.

De volta aos seus aposentos, deixado só pelo criado, escancarou as janelas. Como um vento violento, jogou para fora o que encontrou à mão, ou o que sobrara das várias espoliações sofridas. Objetos, livros, roupas rodopiavam sobre os canteiros adormecidos. Alertado pelo barulho, o criado voltou a tempo de vê-lo em pé, no parapeito. Sobre o fundo negro, encostado ao alisar da imensa janela, seminu, ele apoiava as costas. A bela cabeça loura largada para o lado olhava o nada. Presa à cintura, a camisa recaía em pregas: mais parecia um São Sebastião. Ele expirou rapidamente, algumas vezes, como se quisesse ver, no frio, a fumaça saindo pela boca. Depois, abriu os braços e voou.   

O príncipe maldito

Mary Del Priore

2020

Romance Histórico

O príncipe maldito